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Israel isolou-se ainda mais após julgamento do Tribunal Internacional de Justiça sobre 'ocupação'

21 de julho de 2024

Na sexta-feira, 19 de julho, o Tribunal Internacional de Justiça emitiu um parecer consultivo num caso relativo às "práticas de Israel no Território Palestiniano Ocupado, incluindo Jerusalém Oriental". O parecer é, como esperado, desfavorável a Israel e terá implicações de longo alcance no apoio internacional ao país.

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NARD LOUIS
Nard Lodewijk (1996) trabalha no Departamento de Economia desde 1 de junho de 2022.

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Nard Louis

A principal conclusão: Israel é culpado de uma ocupação ilegal à qual deve ser posto termo imediatamente. A ocupação e a anexação de Jerusalém Oriental também devem ser interrompidas e os chamados colonatos - cidades e aldeias israelitas na Cisjordânia - devem ser evacuados. De acordo com o Tribunal, a população palestiniana está a ser privada da sua autodeterminação e está a ser discriminada. De acordo com o TIJ, Israel deve retirar-se dos territórios ocupados o mais rapidamente possível e indemnizar as pessoas que sofreram.

Esta é uma decisão histórica", afirma Edwin van 't Pad, funcionário do The Rights Forum, uma organização de defesa dos direitos humanos que defende os palestinianos. A clareza com que o Tribunal se pronuncia não tem precedentes. O Tribunal decide que Israel é culpado de apartheid e que a ocupação deve terminar imediatamente. Há anos que as organizações de defesa dos direitos humanos têm vindo a pedir isto".

O PRÓPRIO ISRAEL NÃO ESTÁ A COOPERAR

O processo está em curso há quase dois anos. Em dezembro de 2022, a Assembleia Geral das Nações Unidas solicitou ao Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) que emitisse um parecer consultivo sobre a "ocupação israelita da Cisjordânia, de Gaza e de Jerusalém Oriental".

Nada menos que 52 países apresentaram os seus pontos de vista. O próprio Israel não cooperou no tratamento substantivo do caso. De acordo com os palestinianos, o país ocupa ilegalmente a Cisjordânia e Jerusalém Oriental. Esta afirmação não é totalmente correta, afirma Freek Vergeer, advogado e responsável político do centro de informação e organização de lobby CIDI (Centro de Informação e Documentação de Israel) e especialista em direito internacional.

Jerusalém Oriental foi oficialmente anexada em 1980, depois de ter sido capturada na Guerra dos Seis Dias de 1967. A ocupação parcial da Cisjordânia decorre dos Acordos de Oslo de 1993 e 1995 e, segundo Israel, não é ilegal, porque ainda não existe um acordo de paz. Desta forma, Israel está a invocar os acordos dos Acordos de Oslo. As negociações devem conduzir a uma solução definitiva. Isso ainda não aconteceu, mas os acordos dos Acordos de Oslo continuam de pé".

ISRAEL NUNCA SE RETIROU

Os Acordos de Oslo dividiram a Cisjordânia em três zonas. A Zona A (18% do território) está sob a alçada da Autoridade Palestiniana (AP). Na zona B (22%), a AP é o órgão legislativo administrativo, mas é corresponsável com Israel pela segurança. Na zona C (60%), de longe a maior, Israel exerce a autoridade.

A intenção era que Israel se retirasse cada vez mais da Cisjordânia e que a AP obtivesse também o controlo da Área C. Tal não aconteceu, em parte devido aos ataques palestinianos contra civis israelitas durante a Segunda Intifada (2000-2005) e porque os colonos israelitas continuaram a construir cidades e aldeias na Cisjordânia. Estes colonatos - aos quais continuam a ser acrescentados novos, apoiados pelo atual governo israelita - são altamente controversos a nível internacional.

CONSEQUÊNCIAS DE GRANDE ALCANCE

O parlamento israelita, o Knesset, votou contra a criação de um Estado palestiniano por uma larga maioria na quinta-feira, 18 de julho. Isto reflecte o apoio cada vez menor a uma solução de dois Estados na sociedade israelita", afirma Freek Vergeer do CIDI. Em Israel, o 7 de outubro ainda está fresco na memória. Concordar com uma solução agora significaria recompensar o terror, é o sentimento em Israel".

O Knesset pode ser contra, mas os juízes do TIJ concordam plenamente com a leitura palestiniana. Vergeer considera que o parecer do TIJ terá consequências importantes para o apoio internacional a Israel. Segundo ele, há já algum tempo que existe uma ofensiva legal contra Israel, o que enfraquece a posição internacional do país. O caso do genocídio ainda está a decorrer, tal como o caso contra o Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu e o Ministro da Defesa Yoav Gallant".

Vergeer considera que os palestinianos estão a utilizar habilmente um truque jurídico, numa altura em que Israel já se encontra sob forte pressão internacional. Para que o TIJ possa tomar uma decisão vinculativa, ambos os países, Israel e a Autoridade Palestiniana, têm de concordar com o caso. Mas Israel não está a cooperar. Assim, os palestinianos, por uma via indireta, apenas pediram aconselhamento, sabendo que os opositores de Israel atribuirão tanto peso a isso como a uma decisão vinculativa".

"Isto vai provocar uma nova escalada no debate internacional", pensa Vergeer. Embora o parecer não seja uma declaração vinculativa, os opositores de Israel vão vê-lo e apresentá-lo como tal". Vergeer espera também que os países sejam obrigados a exercer pressão contra Israel e a ocupação. Desta forma, Israel ficará cada vez mais isolado".

"Os aliados tradicionais já não podem proteger Israel", afirma Edwin van 't Pad, do The Rights Forum. Ninguém pode negar que Israel é culpado de violações do direito internacional. Nem mesmo os Países Baixos. O governo tem de começar a trabalhar neste domínio".